segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

AVANÇOS E DESAFIOS DE UM INTERCÂMBIO NÃO CONVENCIONAL ENTRE BRASIL E CUBA - Rafael Litvin Villas Bôas[1]

         A experiência do terceiro ano do projeto de intercâmbio Brasil – Cuba com estudantes da Universidade de Brasília selecionados para passar um mês em Havana, capital de Cuba, e estudantes de universidades cubanas selecionados para passar um mês em Brasília e no Entorno do Distrito Federal foi concluída no mês de dezembro de 2025, com o retorno do estudante de nutrição Vitor Gabriell Cirqueira Gonçalves, que é também integrante do Centro de Memória Viva, polo da Ceilândia, vinculado ao Centro de Educação Paulo Freire (Cepafre).



O intercâmbio é um dos eixos do projeto Acervo e memória das lutas e práticas emancipatórias da educação de jovens e adultos e idosos no DF e constituição de redes de educação popular” coordenado pela professora Eliene Novaes Rocha, da Universidade de Brasília. O projeto tem três objetivos: intercambiar experiências vividas em trabalhos comunitários e em movimentos sociais no percurso da troca de saberes acerca dos pensamentos de Paulo Freire e José Martí; construir um processo de formação permanente em rede de pessoas e coletivos que atuam em diversos movimentos sociais, produzindo práticas emancipatórias de produção de conhecimento, realização de intercâmbios de experiências e estudantes; colaborar com o processo de construção de uma práxis transformadora por meio de educação popular emancipadora e dos ideais libertários de José Martí (século XIX) e Paulo Freire (século XX) e, por meio da reflexão comparada, estabelecer parâmetros reflexivos sobre os desafios da educação popular na América Latina, no século XXI.

Do ponto de vista institucional o intercâmbio é uma proposta elaborada pela Faculdade UnB Planaltina da Universidade de Brasília, a partir do programa de pós-graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural (FUP/PPGMADER) e do Núcleo de Estudos Cubanos do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Nescuba/CEAM/UnB), em conjunto com o Centro de Educação Paulo Freire (Cepafre) em Ceilândia/DF e do Centro de Cultura e Desenvolvimento do Paranoá (CEDEP), em articulação com a Universidade de Ciências Pedagógicas Enrique José Varona (Havana/Cuba).

O cronograma de atividades do estudante estrangeiro selecionado para a terceira edição do projeto, Jorge Antônio Ledesma, foi dividido em dois momentos, o primeiro centrado em Ceilândia, junto à equipe do Centro de Educação Paulo Freire (Cepafre), que construiu no decorrer dos três anos do projeto, um roteiro muito interessante para receber os estudantes estrangeiros e oportunizar que eles conheçam as experiências de alfabetização, formação e organização social construídas pelas forças populares da sociedade civil, em parceria com escolas, universidades, partidos, organizações não governamentais, etc. A acolhida na casa do professor Gilberto Nascimento e o acompanhamento que ele e os coordenadores  Magnólia Moura,  Pedro Lacerda e o conjunto da equipe do Cepafre, fazem aos estudantes cubanos enriquece em grande medida a formação que eles adquirem no Brasil.

A história da Ceilândia e do Distrito Federal é ensinada aos estudantes cubanos pelo ponto de vista da classe trabalhadora, e não pela narrativa oficial. Um dos momentos marcantes, que pude testemunhar, foi a formatura de turmas de alfabetização, em uma grande escola pública da Ceilândia, em um sábado à tarde, com a presença de familiares dos cursistas, e de autoridades políticas do Distrito Federal, deputados distritais e federais, e de professores da Universidade de Brasília. Nessa ocasião, foi possível perceber o esforço de construção e fortalecimento de uma rede de educação popular erigida no decorrer de três décadas, com grande resiliência de seus participantes.

Na etapa do intercâmbio em Planaltina, Jorge transitou por espaços de formação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, conheceu as equipes de educadores e educandos dos cursos de graduação de Planaltina, com maior ênfase para a Licenciatura em Educação do Campo, teve a oportunidade de debater a obra e a luta de José Martí com o professor de filosofia da UnB Jair Reck, autor de um livro sobre Martí e seu legado (em uma turma da LEdoC), estabeleceu interlocução com os professores da área de Linguagens da LEdoC, sobre as experiências de ensino da língua portuguesa e espanhola, respectivamente, no Brasil e em Cuba, conversou sobre a questão racial e os processos de colonização no Brasil e em Cuba com o professor Paulo Gabriel dos Santos, que coordenou o intercâmbio no ano de 2024, e acompanhou a professora Maria Auxiliadora, fundadora do Núcleo de Estudos Cubanos (Nescuba), fazendo uma palestra na disciplina de módulo livre que o Nescuba oferta semestralmente no campus Darcy Ribeiro da UnB.

Jorge Antonio Ledesma visitou feiras populares, escolas públicas do Distrito Federal e de Goiás, no território do quilombo Kalunga, conheceu assentamentos da Reforma Agrária do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, como o Assentamento Pequeno William e a Comuna Panteras Negras, fundado pela militante Adriana Fernandes, visitou o curso de Agroecologia do campus de Planaltina do Instituto Federal de Brasília, conversou com lideranças populares do Cepafre em Ceilândia, do Centro de Educação Popular do Paranoá, fez palestras em turmas do Centro Escolar de Línguas, em escolas públicas participantes do projeto Escola da Terra, de aperfeiçoamento de professores (UnB/Ministério da Educação/SEEDF), conheceu centros culturais como o de Planaltina, visitou cidades históricas como Pirinópolis e Cavalcante, em Goiás,  e vivenciou processos de mobilização popular. Em Planaltina, na maior parte do tempo ficou hospedado em casas de integrantes do coletivo Terra em Cena, Adriana Fernandes da Comuna Panteras Negras, Adriana Gomes e Sandro, que também coordenam o Festival de Cinema de Planaltina Motriz e trabalham com cineclubismo, e Elias Viana, ator da Via Sacra de Planaltina e ativista cultural residente no Vale do Amanhecer.

Em síntese, entre os dias 05 de outubro e 05 de novembro Jorge teve uma experiência intensa de imersão no Brasil, conhecendo a história do país por meio do diálogo com pessoas que vivem, trabalham e militam no entorno da capital federal. Os dilemas da sociedade brasileira, de legado colonial e escravocrata, foram conhecidos pelas contradições contemporâneas da desigualdade social, do racismo, do patriarcado e outras formas de violência mas, por outro lado, o estudante cubano conheceu pessoas e coletividades que evidenciam as características de resiliência, criatividade, combatitividade e inteligência que marcam positivamente os traços da sociabilidade brasileira. Ou seja, conheceu as marcas do trauma histórico que nos assola e a maneira como nossa população tenta, para além de sobreviver, construir um país soberano, democrático e que atenda as demandas da maioria de nossa população.

Por sua vez, Vitor Gabriell conheceu a experiência da vida e da revolução cubana, em uma imersão de 05 de novembro até 05 de dezembro de 2025, em Havana, acompanhado da professora Maria Auxiliadora, e recentemente nomeada como coordenadora da recém criada Casa Brasil em Cuba, e do professor Johansen, que foi intercambista em 2024 pelo projeto, e se disponibilizou a acompanhar Vitor em grande parte das atividades previstas no roteiro organizado pela equipe da Universidade de Ciências Pedagógicas Enrique José Varona (Havana).

 Para se preparar para a viagem Vitor passou por um processo concentrado de formação, de seis encontros de duas horas cada, com a professora Maria Luiza Pinho Pereira, integrande do projeto Pegadas de Paulo Freire, atuando na coordenação dos Centros de Memória Viva, e do professor Rafael Villas Bôas, coordenador do intercâmbio em 2025. No processo de formação Vitor estudou a história da Pedagogia do Oprimido, o contexto de formação dessa proposta pedagógica na década de 1960, a importância que a pedagogia freiriana teve no processo de formação e organização popular das forças populares brasileiras, e o impacto que o golpe de 1964 e a ditadura que durou 21 anos teve sobre o processo de educação da sociedade brasileira, coma destruição das organizações que se incumbiam do processo formativo e organizativo, e a perseguição, tortura, morte ou exílio, dos principais quadros daquele momento histórico, como Paulo Freire. Estudamos também a história de José Martí, o processo revolucionário cubano, e as conexões da história brasileira com a história da Ceilândia, estabelecendo elos e mediações entre a experiência pessoal, a partir da história de vida, com a história mais geral do país e da América Latina.

No mesmo período em que ocorria o processo de preparação o Cepafre organizou, na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) uma exposição sobre a Pedagogia do Oprimido a partir da experiência de alfabetização que desenvolvem. No dia em que fui visitar, último dia da exposição, tive a felicidade de ser acompanhado por Vitor e Milena (a intercambista brasileira do projeto em 2024), ambos integrantes do Centro de Memória Viva no polo da Ceilândia, coordenado pelo Cepafre. A exposição, muito bem organizada, com cartas dos alfabetizados, com documentos históricos da pedagogia freiriana e da passagem de Paulo Freire pelo Distrito Federal em mais de uma ocasião, exibida no principal espaço da política legislativa do Distrito Federal participou da luta política das forças populares e democráticas contra o avanço da extrema direita no país e nos parlamentos: enquanto a instalação foi comemorada e elogiada por alguns, foi hostilizada por outros, que estranharam aquilo que consideram um exemplo pejorativo de doutrinação, exposto em um edifício público do DF. Espero que a exposição circule por outros espaços do DF ampliando o debate sobre a educação popular, a educação de jovens e adultos e até mesmo sobre a história da educação brasileira.

Em Cuba, Vitor teve a experiência de socializar o acúmulo prévio do processo formativo que recebeu e de sua experiência como integrante do Centro de Memória Viva de Ceilândia, ao mesmo tempo em que conheceu diversos espaços emblemáticos de memória da Revolução Cubana, como os museus de alfabetização, e da Revolução, praças, escolas, universidades, teatros, instalações desportivas, praias, bairros emblemáticos de Havana, centros de pesquisa, etc.

Um dos aspectos que gostaria de destacar da viagem foi a feliz coincidência de uma peça teatral ter sido apresentada no Brasil, enquanto Jorge Ledesma estava em intercâmbio, nas comemorações dos 30 anos do Nescuba, e posteriormente, na casa do Brasil em Cuba, quando Vitor estava em intercâmbio, em Havana. A atriz Julie Wetzel, da Cia Burlesca e integrante do grupo de pesquisa Terra em Cena, estava em temporada com a peça, que fala sobre a campanha de alfabetização e o trabalho das brigadas de alfabetização em Cuba, nos primeiros anos da Revolução Cubana, a partir de uma adaptação da história contada no livro “A Revolução de Anita”, de Shirley Langer[2].  É fundamental que os processos de intercâmbio considerem em seus processos a circulação de coletivos artísticos, que ao mesmo em que se apresentam também podem realizar oficinas, cursos, palestras, e com isso ampliam a potencialidade do trabalho formativo nas esferas política e estética.

          A coordenadora geral do projeto, professora Eliene Novaes Rocha destacou na reunião final de avaliação do projeto, em dezembro de 2025, os seguintes aspectos: “as três edições do intercâmbio foram fundamentais para a construção de uma política de intercâmbio muito diferente do que temos geralmente. Tentamos construir uma ideia de que a troca não é do saber individual, é das vivências, daquilo que acumulamos coletivamente. Por isso a estadia em hospedagem familiar, etc. O intercâmbio tem uma intencionalidade que é a construção de redes, de pessoas, pesquisadores, grupos, sujeitos coletivos. Se ele vier a continuar provavelmente o formato vai ser aperfeiçoado para melhor atender aos objetivos, nessa perspectiva”.

          Depois do encerramento do projeto podemos avaliar os avanços, as potencialidades, os limites e os desafios da experiência. Em termos sintéticos, e a título de exemplo, destaco três deles:

 

1º) Manter e fortalecer as características deste tipo de intercâmbio vivencial articulado à formação política e cultural, para além do estudo acadêmico: um dos desafios é manter o intercâmbio com as características que construímos, com um forte roteiro de encontros, conversas com organizações populares, visitas à locais históricos. Esse tipo de experiência é comum em processos como os das Brigadas Latino Americanas de trabalho voluntário em Cuba. Eu participei da 14º Brigada, em Havana, em 2007, e me recordo que visitamos diversas províncias de Cuba, muitas cidades, e tivemos trocas com diferentes dinâmicas de coletividade. Essa manutenção é um desafio porque a tendência das universidades é “acomodar” o intercâmbio nos processos educativos institucionais, ou seja, colocar os intercambistas para assistir aulas, e o que mais acontecer de trocas fica por conta própria dos estudantes. Portanto, precisamos manter a intencionalidade política e pedagógica do intercâmbio.

2º) Desafio de coletivizar os processos: por exemplo, o curso de formação de doze horas dividido em seis encontros de duas horas, que fazemos na preparação do estudante brasileiro pode ser parte do processo de seleção, como forma de inserir mais estudantes na etapa preparatória, e do curso seria escolhida a pessoa que vai para o intercâmbio. Após selecionada a pessoa ocorreriam mais alguns momentos de formação específica já focada no roteiro da viagem a ser desenvolvida.

3º) Articulação política entre sujeitos coletivos: um desafio é manter e, sobretudo, fortalecer o foco no processo de formação coletiva, nas articulações entre movimentos, núcleos de pesquisa, grupos, coletivos de atuação política e cultural, etc. Pois a tendência dos intercâmbios nas universidades é que a experiência seja revertida em ativo intelectual individual, isto é, soma para a vida do indivíduo e enriquece o currículo mas não fortalece, necessariamente, os elos entre as coletividades dos dois países.

Por fim, cabe destacar que diante do ocorrido em 03 de janeiro de 2026, do ataque do governo estadunidense de Donald Trump à Venezuela, e sequestro do presidente Nicolas Maduro, podemos afirmar que a fase do domínio imperialista norte-americano no continente e no mundo entra em nova etapa, numa fase de pirataria aberta em busca de recursos, com uso indiscriminado de poder bélico não apenas para pressionar as negociações, mas para realizar ações diretas de guerra de movimento visando quebrar resistências de governos oponentes e subordinar os países do continente americano ao seu arco de influência. Na ação do dia 03 de janeiro morreram mais de uma centena de venezuelanos e cubanos no ataque.

Os militares cubanos estavam em uma das tantas ações de solidariedade características do governo cubano, que exporta educação, saúde e sua expertise em segurança para os países do sul global com quem mantém forte aliança. Enquanto isso, os Estados Unidos exportam a guerra, a violência simbólica e direta, os golpes e manobras de desestabilização de governos, a extração indiscriminada de recursos naturais e energéticos dos países, ampliando a insegurança global. Se coloca em novo patamar a necessidade de fortalecimento da solidariedade internacional, e do fortalecimento do protagonismo da juventude na defesa de nossos países, de nossos territórios, de nossas populações, em confronto direto com o imperialismo, e em posição ativa na construção de futuros coletivos, emancipatórios, com o protagonismo das forças populares de todo o mundo.

Encerro com a reflexão final que o estudante de Nutrição da UnB Vitor Gabriell fez no último parágrafo de seu longo e denso relatório reportando a experiência de intercâmbio em Cuba:

Por fim, agradeço a oportunidade de conhecer um país com uma história tão rica e importante para a América Latina. Apesar de todas as dificuldades que Cuba enfrenta em decorrência do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos, o país segue resistindo. Como morador da Ceilândia, identifiquei-me profundamente com a história de Cuba e consigo articular as duas trajetórias, uma vez que a história da Ceilândia também é uma história de resistência, marcada pela luta dos movimentos sociais e pela força de sua população. Essa resistência se manifesta desde o processo de realocação ocorrido em 1971, quando fomos afastados da capital que ajudamos a construir. Assim como Cuba, a Ceilândia resiste.

 

Planaltina, 17 de janeiro de 2026.



[1] Professor da Licenciatura em Educação do Campo da Faculdade UnB Planaltina e do programa de pós-graduação em artes cênicas da Universidade de Brasília. Pesquisador do Núcleo de Estudos Cubanos e coordenador do coletivo e grupo de pesquisa Terra em Cena. Coordenou a 3ª edição do intercâmbio de estudantes brasileiros e cubanos, realizada no ano de 2025.

[2] Notícia da montagem em Havana disponível no site do Nescuba: https://nescuba.cdtc.unb.br/ e em minha coluna no jornal Brasil de Fato DF há uma análise crítica da peça disponível pelo link: https://www.brasildefato.com.br/colunista/rafael-villas-boas/2024/09/19/a-aurora-novo-espetaculo-da-cia-burlesca-aborda-em-chave-epica-o-tema-da-educacao-de-ontem-e-hoje/

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Projeto Andanças chega em Ceilândia

 Na tarde do dia 6/3/2026 (sexta-feira), Ivanete Silva, Madalena Tôrres e Pedro Lacerda, representantes do Movimento Popular por uma Ceilând...