A experiência do terceiro ano do projeto de intercâmbio Brasil – Cuba com estudantes da Universidade de Brasília selecionados para passar um mês em Havana, capital de Cuba, e estudantes de universidades cubanas selecionados para passar um mês em Brasília e no Entorno do Distrito Federal foi concluída no mês de dezembro de 2025, com o retorno do estudante de nutrição Vitor Gabriell Cirqueira Gonçalves, que é também integrante do Centro de Memória Viva, polo da Ceilândia, vinculado ao Centro de Educação Paulo Freire (Cepafre).
O
intercâmbio é um dos eixos do projeto “Acervo e memória das lutas e práticas emancipatórias da educação de
jovens e adultos e idosos no DF e constituição de redes de educação popular”
coordenado pela professora Eliene Novaes Rocha, da Universidade de Brasília. O
projeto tem três objetivos: intercambiar experiências vividas em trabalhos
comunitários e em movimentos sociais no percurso da troca de saberes acerca dos
pensamentos de Paulo Freire e José Martí; construir um processo de formação permanente
em rede de pessoas e coletivos que atuam em diversos movimentos sociais,
produzindo práticas emancipatórias de produção de conhecimento, realização de
intercâmbios de experiências e estudantes; colaborar com o processo de construção
de uma práxis transformadora por meio de educação popular emancipadora e dos
ideais libertários de José Martí (século XIX) e Paulo Freire (século XX) e, por
meio da reflexão comparada, estabelecer parâmetros reflexivos sobre os desafios
da educação popular na América Latina, no século XXI.
Do ponto de vista institucional o
intercâmbio é uma proposta elaborada pela Faculdade UnB Planaltina da
Universidade de Brasília, a partir do programa de pós-graduação em Meio
Ambiente e Desenvolvimento Rural (FUP/PPGMADER) e do Núcleo de Estudos Cubanos
do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Nescuba/CEAM/UnB), em
conjunto com o Centro de Educação Paulo Freire (Cepafre) em Ceilândia/DF e do
Centro de Cultura e Desenvolvimento do Paranoá (CEDEP), em articulação com a
Universidade de Ciências Pedagógicas Enrique José Varona (Havana/Cuba).
O
cronograma de atividades do estudante estrangeiro selecionado para a terceira
edição do projeto, Jorge Antônio Ledesma, foi dividido em dois momentos, o
primeiro centrado em Ceilândia, junto à equipe do Centro de Educação Paulo
Freire (Cepafre), que construiu no decorrer dos três anos do projeto, um
roteiro muito interessante para receber os estudantes estrangeiros e
oportunizar que eles conheçam as experiências de alfabetização, formação e
organização social construídas pelas forças populares da sociedade civil, em
parceria com escolas, universidades, partidos, organizações não governamentais,
etc. A acolhida na casa do professor Gilberto Nascimento e o acompanhamento que
ele e os coordenadores Magnólia Moura, Pedro Lacerda e o conjunto da equipe do
Cepafre, fazem aos estudantes cubanos enriquece em grande medida a formação que
eles adquirem no Brasil.
A
história da Ceilândia e do Distrito Federal é ensinada aos estudantes cubanos
pelo ponto de vista da classe trabalhadora, e não pela narrativa oficial. Um
dos momentos marcantes, que pude testemunhar, foi a formatura de turmas de
alfabetização, em uma grande escola pública da Ceilândia, em um sábado à tarde,
com a presença de familiares dos cursistas, e de autoridades políticas do
Distrito Federal, deputados distritais e federais, e de professores da
Universidade de Brasília. Nessa ocasião, foi possível perceber o esforço de
construção e fortalecimento de uma rede de educação popular erigida no decorrer
de três décadas, com grande resiliência de seus participantes.
Na
etapa do intercâmbio em Planaltina, Jorge transitou por espaços de formação do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, conheceu as equipes de educadores
e educandos dos cursos de graduação de Planaltina, com maior ênfase para a
Licenciatura em Educação do Campo, teve a oportunidade de debater a obra e a
luta de José Martí com o professor de filosofia da UnB Jair Reck, autor de um
livro sobre Martí e seu legado (em uma turma da LEdoC), estabeleceu
interlocução com os professores da área de Linguagens da LEdoC, sobre as
experiências de ensino da língua portuguesa e espanhola, respectivamente, no
Brasil e em Cuba, conversou sobre a questão racial e os processos de
colonização no Brasil e em Cuba com o professor Paulo Gabriel dos Santos, que
coordenou o intercâmbio no ano de 2024, e acompanhou a professora Maria
Auxiliadora, fundadora do Núcleo de Estudos Cubanos (Nescuba), fazendo uma
palestra na disciplina de módulo livre que o Nescuba oferta semestralmente no
campus Darcy Ribeiro da UnB.
Jorge
Antonio Ledesma visitou feiras populares, escolas públicas do Distrito Federal
e de Goiás, no território do quilombo Kalunga, conheceu assentamentos da
Reforma Agrária do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, como o
Assentamento Pequeno William e a Comuna Panteras Negras, fundado pela militante
Adriana Fernandes, visitou o curso de Agroecologia do campus de Planaltina do
Instituto Federal de Brasília, conversou com lideranças populares do Cepafre em
Ceilândia, do Centro de Educação Popular do Paranoá, fez palestras em turmas do
Centro Escolar de Línguas, em escolas públicas participantes do projeto Escola
da Terra, de aperfeiçoamento de professores (UnB/Ministério da Educação/SEEDF),
conheceu centros culturais como o de Planaltina, visitou cidades históricas
como Pirinópolis e Cavalcante, em Goiás, e vivenciou processos de mobilização popular. Em
Planaltina, na maior parte do tempo ficou hospedado em casas de integrantes do
coletivo Terra em Cena, Adriana Fernandes da Comuna Panteras Negras, Adriana
Gomes e Sandro, que também coordenam o Festival de Cinema de Planaltina Motriz
e trabalham com cineclubismo, e Elias Viana, ator da Via Sacra de Planaltina e
ativista cultural residente no Vale do Amanhecer.
Em
síntese, entre os dias 05 de outubro e 05 de novembro Jorge teve uma
experiência intensa de imersão no Brasil, conhecendo a história do país por
meio do diálogo com pessoas que vivem, trabalham e militam no entorno da
capital federal. Os dilemas da sociedade brasileira, de legado colonial e
escravocrata, foram conhecidos pelas contradições contemporâneas da
desigualdade social, do racismo, do patriarcado e outras formas de violência
mas, por outro lado, o estudante cubano conheceu pessoas e coletividades que
evidenciam as características de resiliência, criatividade, combatitividade e
inteligência que marcam positivamente os traços da sociabilidade brasileira. Ou
seja, conheceu as marcas do trauma histórico que nos assola e a maneira como
nossa população tenta, para além de sobreviver, construir um país soberano,
democrático e que atenda as demandas da maioria de nossa população.
Por
sua vez, Vitor Gabriell conheceu a experiência da vida e da revolução cubana,
em uma imersão de 05 de novembro até 05 de dezembro de 2025, em Havana,
acompanhado da professora Maria Auxiliadora, e recentemente nomeada como
coordenadora da recém criada Casa Brasil em Cuba, e do professor Johansen, que
foi intercambista em 2024 pelo projeto, e se disponibilizou a acompanhar Vitor
em grande parte das atividades previstas no roteiro organizado pela equipe da Universidade de Ciências Pedagógicas
Enrique José Varona (Havana).
Para se preparar para a viagem Vitor passou
por um processo concentrado de formação, de seis encontros de duas horas cada,
com a professora Maria Luiza Pinho Pereira, integrande do projeto Pegadas de
Paulo Freire, atuando na coordenação dos Centros de Memória Viva, e do
professor Rafael Villas Bôas, coordenador do intercâmbio em 2025. No processo
de formação Vitor estudou a história da Pedagogia do Oprimido, o contexto de
formação dessa proposta pedagógica na década de 1960, a importância que a
pedagogia freiriana teve no processo de formação e organização popular das
forças populares brasileiras, e o impacto que o golpe de 1964 e a ditadura que
durou 21 anos teve sobre o processo de educação da sociedade brasileira, coma
destruição das organizações que se incumbiam do processo formativo e
organizativo, e a perseguição, tortura, morte ou exílio, dos principais quadros
daquele momento histórico, como Paulo Freire. Estudamos também a história de
José Martí, o processo revolucionário cubano, e as conexões da história
brasileira com a história da Ceilândia, estabelecendo elos e mediações entre a
experiência pessoal, a partir da história de vida, com a história mais geral do
país e da América Latina.
No
mesmo período em que ocorria o processo de preparação o Cepafre organizou, na Câmara
Legislativa do Distrito Federal (CLDF) uma exposição sobre a Pedagogia do
Oprimido a partir da experiência de alfabetização que desenvolvem. No dia em
que fui visitar, último dia da exposição, tive a felicidade de ser acompanhado
por Vitor e Milena (a intercambista brasileira do projeto em 2024), ambos
integrantes do Centro de Memória Viva no polo da Ceilândia, coordenado pelo
Cepafre. A exposição, muito bem organizada, com cartas dos alfabetizados, com
documentos históricos da pedagogia freiriana e da passagem de Paulo Freire pelo
Distrito Federal em mais de uma ocasião, exibida no principal espaço da
política legislativa do Distrito Federal participou da luta política das forças
populares e democráticas contra o avanço da extrema direita no país e nos
parlamentos: enquanto a instalação foi comemorada e elogiada por alguns, foi hostilizada
por outros, que estranharam aquilo que consideram um exemplo pejorativo de
doutrinação, exposto em um edifício público do DF. Espero que a exposição
circule por outros espaços do DF ampliando o debate sobre a educação popular, a
educação de jovens e adultos e até mesmo sobre a história da educação
brasileira.
Em
Cuba, Vitor teve a experiência de socializar o acúmulo prévio do processo
formativo que recebeu e de sua experiência como integrante do Centro de Memória
Viva de Ceilândia, ao mesmo tempo em que conheceu diversos espaços emblemáticos
de memória da Revolução Cubana, como os museus de alfabetização, e da
Revolução, praças, escolas, universidades, teatros, instalações desportivas,
praias, bairros emblemáticos de Havana, centros de pesquisa, etc.
Um
dos aspectos que gostaria de destacar da viagem foi a feliz coincidência de uma
peça teatral ter sido apresentada no Brasil, enquanto Jorge Ledesma estava em
intercâmbio, nas comemorações dos 30 anos do Nescuba, e posteriormente, na casa
do Brasil em Cuba, quando Vitor estava em intercâmbio, em Havana. A atriz Julie
Wetzel, da Cia Burlesca e integrante do grupo de pesquisa Terra em Cena, estava
em temporada com a peça, que fala sobre a campanha de alfabetização e o
trabalho das brigadas de alfabetização em Cuba, nos primeiros anos da Revolução
Cubana, a partir de uma adaptação da história contada no livro “A Revolução de
Anita”, de Shirley Langer[2]. É fundamental que os processos de intercâmbio
considerem em seus processos a circulação de coletivos artísticos, que ao mesmo
em que se apresentam também podem realizar oficinas, cursos, palestras, e com
isso ampliam a potencialidade do trabalho formativo nas esferas política e
estética.
A coordenadora geral do projeto,
professora Eliene Novaes Rocha destacou na reunião final de avaliação do
projeto, em dezembro de 2025, os seguintes aspectos: “as três edições do
intercâmbio foram fundamentais para a construção de uma política de intercâmbio
muito diferente do que temos geralmente. Tentamos construir uma ideia de que a
troca não é do saber individual, é das vivências, daquilo que acumulamos
coletivamente. Por isso a estadia em hospedagem familiar, etc. O intercâmbio tem
uma intencionalidade que é a construção de redes, de pessoas, pesquisadores,
grupos, sujeitos coletivos. Se ele vier a continuar provavelmente o formato vai
ser aperfeiçoado para melhor atender aos objetivos, nessa perspectiva”.
Depois do encerramento do projeto
podemos avaliar os avanços, as potencialidades, os limites e os desafios da
experiência. Em termos sintéticos, e a título de exemplo, destaco três deles:
1º) Manter e fortalecer as características
deste tipo de intercâmbio vivencial articulado à formação política e cultural,
para além do estudo acadêmico: um dos desafios é manter o
intercâmbio com as características que construímos, com um forte roteiro de
encontros, conversas com organizações populares, visitas à locais históricos.
Esse tipo de experiência é comum em processos como os das Brigadas Latino
Americanas de trabalho voluntário em Cuba. Eu participei da 14º Brigada, em
Havana, em 2007, e me recordo que visitamos diversas províncias de Cuba, muitas
cidades, e tivemos trocas com diferentes dinâmicas de coletividade. Essa
manutenção é um desafio porque a tendência das universidades é “acomodar” o
intercâmbio nos processos educativos institucionais, ou seja, colocar os
intercambistas para assistir aulas, e o que mais acontecer de trocas fica por
conta própria dos estudantes. Portanto, precisamos manter a intencionalidade
política e pedagógica do intercâmbio.
2º) Desafio de coletivizar os processos: por
exemplo, o curso de formação de doze horas dividido em seis encontros de duas
horas, que fazemos na preparação do estudante brasileiro pode ser parte do
processo de seleção, como forma de inserir mais estudantes na etapa
preparatória, e do curso seria escolhida a pessoa que vai para o intercâmbio. Após
selecionada a pessoa ocorreriam mais alguns momentos de formação específica já
focada no roteiro da viagem a ser desenvolvida.
3º) Articulação política entre sujeitos
coletivos: um desafio é manter e, sobretudo, fortalecer o foco no
processo de formação coletiva, nas articulações entre movimentos, núcleos de
pesquisa, grupos, coletivos de atuação política e cultural, etc. Pois a
tendência dos intercâmbios nas universidades é que a experiência seja revertida
em ativo intelectual individual, isto é, soma para a vida do indivíduo e
enriquece o currículo mas não fortalece, necessariamente, os elos entre as
coletividades dos dois países.
Por
fim, cabe destacar que diante do ocorrido em 03 de janeiro de 2026, do ataque
do governo estadunidense de Donald Trump à Venezuela, e sequestro do presidente
Nicolas Maduro, podemos afirmar que a fase do domínio imperialista
norte-americano no continente e no mundo entra em nova etapa, numa fase de
pirataria aberta em busca de recursos, com uso indiscriminado de poder bélico
não apenas para pressionar as negociações, mas para realizar ações diretas de
guerra de movimento visando quebrar resistências de governos oponentes e
subordinar os países do continente americano ao seu arco de influência. Na ação
do dia 03 de janeiro morreram mais de uma centena de venezuelanos e cubanos no
ataque.
Os
militares cubanos estavam em uma das tantas ações de solidariedade
características do governo cubano, que exporta educação, saúde e sua expertise
em segurança para os países do sul global com quem mantém forte aliança.
Enquanto isso, os Estados Unidos exportam a guerra, a violência simbólica e
direta, os golpes e manobras de desestabilização de governos, a extração
indiscriminada de recursos naturais e energéticos dos países, ampliando a
insegurança global. Se coloca em novo patamar a necessidade de fortalecimento
da solidariedade internacional, e do fortalecimento do protagonismo da
juventude na defesa de nossos países, de nossos territórios, de nossas
populações, em confronto direto com o imperialismo, e em posição ativa na
construção de futuros coletivos, emancipatórios, com o protagonismo das forças
populares de todo o mundo.
Encerro com a reflexão final que o
estudante de Nutrição da UnB Vitor Gabriell fez no último parágrafo de seu
longo e denso relatório reportando a experiência de intercâmbio em Cuba:
Por fim, agradeço a oportunidade de conhecer um país com uma
história tão rica e importante para a América Latina. Apesar de todas as
dificuldades que Cuba enfrenta em decorrência do bloqueio econômico imposto
pelos Estados Unidos, o país segue resistindo. Como morador da Ceilândia,
identifiquei-me profundamente com a história de Cuba e consigo articular as
duas trajetórias, uma vez que a história da Ceilândia também é uma história de
resistência, marcada pela luta dos movimentos sociais e pela força de sua
população. Essa resistência se manifesta desde o processo de realocação
ocorrido em 1971, quando fomos afastados da capital que ajudamos a construir.
Assim como Cuba, a Ceilândia resiste.
Planaltina,
17 de janeiro de 2026.
[1]
Professor da Licenciatura em Educação do Campo da Faculdade UnB Planaltina e do
programa de pós-graduação em artes cênicas da Universidade de Brasília. Pesquisador
do Núcleo de Estudos Cubanos e coordenador do coletivo e grupo de pesquisa
Terra em Cena. Coordenou a 3ª edição do intercâmbio de estudantes brasileiros e
cubanos, realizada no ano de 2025.
[2]
Notícia da montagem em Havana disponível no site do Nescuba: https://nescuba.cdtc.unb.br/ e em minha
coluna no jornal Brasil de Fato DF há uma análise crítica da peça disponível
pelo link: https://www.brasildefato.com.br/colunista/rafael-villas-boas/2024/09/19/a-aurora-novo-espetaculo-da-cia-burlesca-aborda-em-chave-epica-o-tema-da-educacao-de-ontem-e-hoje/

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